Livraço. Obra-prima. Adorei. Esse foi o primeiro livro escrito por Doris Lessing, em 1950. Em linhas gerais: numa fazenda na antiga colônia britânica da Rodésia do Sul (atual Zimbabué) encontra-se Dick, um fazendeiro branco falido, Mary, a esposa frustrada e infeliz, e Moses, o empregado negro. Mas a história é muito mais do que isso. É racismo, é intolerância, é preconceito, é ignorância, é dominação, é infelicidade quando uma pessoa se vê obrigada a abandonar suas convicções por pressão social. Desde o início sabe-se que tudo vai acabar muito mal, mas mesmo assim é fascinante. Espetacular mesmo. Recomendo.

Lido em inglês.

Os livros de Joanna Rubin Dranger são pequenos romances cuja história é contada por meio de quadrinhos. A protagonista é chamada no primeiro livro de Fröken Livrädd (Dona Apavorada) e, no segundo, de Fröken Markvärdig (Dona Importante) . No primeiro livro Dona Apavorada acha Mr. Right, casa, se apaixona por um outro, se separa e se esborracha com as mentiras do parceiro novo.

No segundo livro Dona Importante é uma profissional reconhecida em busca “da idéia brilhante”, “do conceito inédito”, “do toque de gênio”, da “Criação”. Em ambos os livros a história é a das mulheres modernas, de suas vontades e medos mais secretos. Tudo é, na verdade, muito engraçado. Me identifiquei tanto que acabei sentindo ternura por mim mesma.

Lido em sueco.

“Kidnappad hjärna”

March 28, 2008

O livro de Miki Agerberg explica de forma simples alguns aspectos da dependência de drogas. As drogas vão desde as aceitadas socialmente, como álcool ou tabaco, até as proibidas, como cocaína, heroína e anfetamina. Ele explica como a dependência acontece quimicamente de forma simples o que faz com que o livro quase nunca fique chato. A única coisa mais ou menos é que o livro parece ser formado por uma série de matérias, sem muita continuidade. Mas as partes em que ele descreve a dependência química, como tudo acontece, é muito interessante mesmo. E instrutivo.

Lido em sueco.

“Bitterfittan”

January 22, 2008

O romance feminista de Maria Sveland foi muito discutido quando lançado. O título é intraduzível (isso aqui é um blog de família!), mas diz respeito à amargura que algumas mulheres que resolvem levar a frente a equação filho+trabalho sentem. A razão da amargura seria a falta de igualdade da vida, do que se espera delas em relação do que se espera dos homens na mesma situação. Mas, principalmente, como elas mesmas se exigem uma série de coisas simultaneamente e, claro, falham, e se enchem de culpa. Ask me if it rings a bell… Oh yeah.

Lido em sueco.

Livro infantil de Graciliano Ramos. Li em vinte minutos. Sinto uma saudade imensa do português, ainda mais do português falado com sotaque. Na escrita isso pode ser visto quando o autor utiliza palavras como “mangando”, “taludo”, “arenga besta” e o melhor: “Bolam comigo porque eu sou miúdo”. Há coisa melhor? Presente da Maria Lídia. :)

Lido em português.

“Mannen utan öde”

January 12, 2008

Esse livro de Imre Kertész, vencedor do prêmio Nobel de literatura de 2002, é uma obra-prima. O protagonista, um menino de 14 anos, conta como foi levado pra campos de concentração e como era o dia-a-dia de lá. Até aí, parece um livro comum, um testemunho dos horrores da segunda guerra mundial. Mas a história é muito mais. Minha impressão é que o menino passou pelo que passou e saiu totalmente inteiro da experiência. No final do livro ele explica como isso foi possível. Acabei por me perguntar: pode um livro sobre um dos piores capítulos da história mundial não conter uma gota de ódio? Segundo Imre Kertész pode. Livraço.

Lido em sueco.

“Hitta hem”

December 26, 2007

A antologia organizada por Sofia Lindström e Astrid Trotzig é composta por 22 textos escritos por pessoas que fazem parte da primeira geração de adultos suecos adotados da Coréia do Sul. Eu não sabia, mas adoção internacional é uma ocorrência naturalíssima nesse país, cuja sociedade funciona segundo estruturas hierárquicas muito rígidas. São mais de 150 mil as crianças adotadas advindas da Coréia do Sul e espalhadas pelo mundo. A maioria foi pros EUA, nove mil vieram para a Suécia, outras tantas foram parar em diversos países europeus, Austrália e Nova Zelândia. O livro é interessante, mas, claro, os textos não têm todos a mesma qualidade. O texto mais redondo, com mais punch, é o de Inger Stenström, “Flickan med tigrarna” (”A menina com os tigres”). O mais emocional (que me levou às lágrimas) é o de Peter Persman, “Resan till helheten” (”A viagem até a completude”). O mais triste e nervoso, o de Johan Julius, “Ett gammalt barns betraktelser” (”Considerações de uma criança velha”).

Lido em sueco.

“Into the Wild”

December 15, 2007

Segunda vez que li o livro de Jon Krakauer. A primeira foi em Nova York, há quase dez anos. Gostei mais dessa vez. Ainda fico intrigada pela história de Chris McCandless, de 22 anos, que em abril de 1992, entra sozinho na wilderness do Alasca pra nunca mais sair. Pra quê? Por quê? Não se sabe. Krakauer não vai fundo nas questões de McCandless, até porque seria especular demais, uma vez que o rapaz não deixou muitas anotações de foro íntimo em seus diários. Essa seria, talvez, uma das únicas fraquezas do livro. Mas, nem por isso a leitura deixa de ser interessante. Muito pelo contrário.

Lido em inglês.

“Dvärgen”

December 3, 2007

Demorei pra ler o pequeno (150 páginas) livro de Pär Lagerkvist (ganhador do Nobel de literatura em 1951)porque tive dificuldade em me aprofundar (ou apreciar) a amargura do protagonista, o anão do título, que é também o narrador da história. São cento e cinqüenta páginas de pequeneza de espírito (pun intendet); o anão distribuindo ódio a sua volta, manipulando e matando. Um sociopata, uma eminência parda numa côrte italiana durante a Renascença. Mas o livro é interessante, ainda mais porque é escrito em forma de diário pelo anão. Fico imaginando como deve ter sido escrever esse romance. Pra escrever, em primeira pessoa, sobre tanto ódio, é preciso ter sentido esse ódio. Não pode ser algo apenas imaginado. Será?

Lido em sueco.

Difícil escrever alguma coisa sobre o livro de Jean-Dominique Bauby. É que ao mesmo tempo em que a obra é fácil de se ler e razoavelmente interessante, há sempre uma tristeza por trás de cada parágrafo. O livro é, como o subtítulo mostra, uma “memoir of life in death”. Bauby era editor-chefe da Elle francesa quando sofreu um derrame tão arrasador que se viu vítima da Locked-in syndrome, em que a pessoa fica, lúcida, presa num corpo inerte. Terrível destino. O livro é um adieu com pouco mais de cem páginas. Até porque, Bauby morreu dois dias depois da publicação na França.

Lido em inglês.