Primeiro livro do francês Édouard Louis que leio. É também o primeiro livro dele. O título no original é ”En finir avec Eddy Bellegueule”. Pelo que entendi é um livro de memórias sobre a infância e adolescência do autor, sobre como foi difícil crescer como homosexual numa família pobre e sem educacão formal, numa cidade pequena do interior do norte francês. Muitas são as histórias de “bullying”, de como Eddy era massacrado por outras criancas na escola e como não conseguia fazer com que a violência parasse. Ele conta como os pais, sem qualquer instrucão, o maltrataram, ou melhor, não tinham tempo, energia e neurônios pra entender como deveriam cuidar de uma crianca – muito menos uma crianca diferente da norma. Ele nunca gostou de meninas e nunca quiz jogar futebol. Era considerado “afeminado” e, por isso, sempre fora dos padrões. Impressionante como o mundo de uma crianca – seja ela francesa, sueca ou brasileira – pode conter tanta violência e infelicidade. O livro é interessante.

Lido em sueco.

”Järnålder”

July 15, 2016

Gosto muito dos livros do sul-africano J.M. Coetzee, que ganhou o Nobel de Literatura em 2003. Esse aqui, cujo título no original é “Age of Iron”, não é diferente. A história é a seguinte: Elizabeth Curren, uma senhora sul-africana branca, descobre que está com câncer incurável. Ela escreve uma carta (de despedida?) para a filha, já há anos morando nos Estados Unidos. Ela escreve sobre o seu dia-a-dia, mas também sobre o que acontece na África do Sul, que naquela época (o livro foi publicado pela primeira vez em 1990), vivia o ápice e o final do Apartheid. Elizabeth detesta o que acontece no seu país. Ela descreve como o filho adolescente de sua empregada negra é morto pela polícia e da revolta que sente pela impunidade total dos policiais assassinos e brancos. No início do livro, Elizabeth deixa um mendigo bêbado, Vercueil, vir morar na casa dela, o que é incompreensível assim de primeira. Mas essa parte da história mostra mais uma dimensão da vida dela: a solidão. Livro fantástico, tema pesadíssimo, mas com uma prosa fenomenal.

Lido em sueco.

Esse livro do escritor Daniel Galera me foi recomendado por muitas pessoas, todos homens. Achei o título interessante. Quando ganhei o livro do meu pai e meu irmão me disse que eu tinha que ler, fui lá e li. Olha, eu gostei, mas não completamente. Achei a história bem contada, interessante e gostei da cor local que ele deu (o que me faz refletir que eu realmente estou há muitos anos fora do Brasil porque todos os livros brasileiros que leio me enchem de nostalgia pelo idioma, lugares, cheiros e sabores que eu deixei pra trás). Mas, achei um livro essencialmente masculino, o que em si não é um problema, mas que não me agrada assim além da conta. Ao mesmo tempo, gostei MUITO da parte final do livro, quando o protagonista (ele tem nome? Não me lembro mas acho que não) sai de casa para andar e ficar sozinho. Não ficamos sabendo muito quando ele tomou essa decisão, provavelmente quando largou o emprego, mas a narrativa da caminhada dele de muitos dias é muito boa. Eu me vi prendendo a respiracão durante a leitura e no final não consegui ir dormir até terminar o livro, apesar de precisar trabalhar no dia seguinte. O protagonista tem um problema cognitivo que o faz esquecer o rosto das pessoas que conhece. Ele não reconhece as pessoas pelo rosto, mas por detalhes corporais, jeito de andar etc. Insólito. Mas aí você se pergunta, do que se trata esse livro? O protagonista conversa com o pai, que conta sobre o mistério do desaparecimento do avô. O pai se mata e o rapaz larga tudo pra viver sozinho numa cidade do litoral catarinense, Garopaba, onde quer descobrir o que aconteceu com o avô.

Lido em português.